Medicina não foi uma escolha que fiz com a cabeça. Foi uma escolha que meu coração já havia feito muito antes de eu ter palavras para explicar.
Cresci vendo meu pai de branco. Roupas brancas — era assim que os médicos se vestiam naquela época, e era assim que eu o reconhecia chegando e saindo de casa. E essas roupas contavam histórias sem precisar falar. As histórias do meu pai eram sempre as mesmas: manchas de sangue nas mangas, nas meias, às vezes no pescoço. Para qualquer criança, poderia ser assustador. Para mim, era sinônimo de presença. De importância. De alguém que havia estado onde era necessário estar.
Meu pai é ginecologista e obstetra. E desde que me entendo por gente, eu o via chegar em casa com essas roupas que carregavam o peso e a graça de ter acompanhado vidas chegando ao mundo. Não entendia sobre dinheiro, sobre carreiras, sobre mercado. Entendia sobre aquela figura de branco que saía cedo, chegava tarde, e parecia sempre — sempre — saber o que fazer.
Essa imagem ficou guardada em mim como uma semente. Não sabia quando iria germinar, mas ela estava lá.
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Quando entrei na faculdade de medicina, meu desejo era a psiquiatria. Sempre fui fascinada pelo que acontece dentro das pessoas — não apenas nos corpos, mas nas mentes, nas histórias, nos silêncios. Mas a vida tem uma forma muito própria de nos conduzir para onde precisamos estar.
Durante o internato, assisti a um parto. E algo mudou dentro de mim de forma irreversível. Ver uma vida chegar ao mundo — aquele momento exato em que um ser humano respira pela primeira vez — não é algo que se descreve. É algo que se sente com todo o corpo. Naquele instante, soube: era aqui. Era isso.
Comecei a residência querendo fazer obstetrícia. A ginecologia veio depois, quase por acidente — era o ponto forte do programa, e fui me aprofundando sem perceber. E foi na ginecologia que encontrei algo que a obstetrícia, com toda a sua beleza, não me dava: a mulher inteira.
Com o tempo, e com as dores que a vida me trouxe — e foram muitas — comecei a entender de forma muito mais profunda o que significa cuidar de uma mulher de verdade. Que o corpo fala o que a boca não consegue dizer. Que sintomas físicos às vezes são gritos emocionais disfarçados. Que uma consulta ginecológica pode ser, para muitas mulheres, o único espaço onde alguém realmente pergunta como elas estão.
Foi por isso que não me contentei apenas com a medicina. Mergulhei em cursos de autoconhecimento, de avaliação pessoal e de terapia ortomolecular — uma jornada que me levou a compreender o ser humano para muito além dos exames e dos laudos. Cada aprofundamento foi também uma forma de me curar e de me tornar uma médica mais inteira. E foi por isso que, hoje, a forma como cuido das minhas pacientes carrega muito mais do que técnica — carrega escuta, carrega presença, carrega a certeza de que cada mulher que entra no meu consultório merece ser vista por inteiro.
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Escolhi a medicina porque vi, desde criança, o que significa ser um médico de verdade. Não o médico do status ou das roupas impecáveis — mas o das roupas brancas com manchas de sangue e fé inabalável. O que chega onde é preciso chegar, mesmo quando é difícil.
Ainda estou aprendendo a ter a fé do meu pai. Mas aprendi, ao longo da minha própria história, que a medicina mais poderosa começa quando paramos de apenas tratar e começamos a verdadeiramente cuidar.
E é isso que venho fazer aqui, nesse espaço, com vocês. Um texto de cada vez.
Dra. Luiza Barra de Andrade
Ginecologista · Obstetra · Biotecnologista
Médica formada com alma de cuidadora. Aprofundou-se em autoconhecimento e terapia ortomolecular para oferecer um cuidado que vai além do corpo — porque acredita que tratar a mulher inteira é o único caminho para uma medicina que transforma de verdade.